Como vários amigos xingam a minha família de Addams, achei que seria engraçado abrir o site com um texto sobre filmes de terror. Addams é terror, não é? Não tem muitas cenas de susto, mas pelo número de cenas de “chato” eu acho que é.
Cresci fascinado por filmes de horror. Fantasiava ser um Jason pra resolver no facão as frustrações do meu universo infantil. Toda criança se sente impotente frente aos desafios que a vida apresenta no plano social. Os filmes de terror nos aliviam dessas pressões apresentando a ilusória noção de que as cobranças e valores que nos condenam poderão ser destruídos – naquele pique de que se tudo der errado a gente vira o Jason e pronto. Escapismo infantil, e justamente por isso seduz a criançada. Filmes como Carrie a Estranha e Sexta-Feira 13 sintetizam esse sentimento.
Ao ficar um pouco mais velho, perdi o interesse pela maioria dos filmes de terror graças a seus roteiros péssimos, atuação péssima e por que eles não davam mais medo nenhum. No entanto, continuava fascinado pelo visual dos filmes e comecei a procurar por filmes de terror que satisfizessem meu gosto agora um pouco mais maduro. Nessa época fiquei sabendo de um apanhado de filmes italianos dos diretores Mario Bava e Dario Argento que haviam sido importantes para o desenvolvimento do terror e eram muito cultuados pelos especialistas do gênero. Rodei todos os sebos da minha cidade, verdadeiros calabouços de VHS a dois reais, mas não encontrei se quer um filme dos diretores italianos sobre os quais eu havia lido. Com o tempo esqueci completamente o universo do terror.
Hoje, com o interesse renovado pelo gênero e vivendo em um mundo que nos possibilita fazer o download (download legal, na loja lá da Apple; claro) de qualquer filme, pude recentemente assistir a alguns filmes que havia procurado muito durante minha adolescência. Depois fiz uma pesquisa sobre o contexto dos filmes e escrevi esse pequeno post falando sobre eles.
Os filmes não assustam, são fracos em roteiro e diálogo, mas tem um visual incrível e foram muito importantes no contexto que os originou. São uma expressão de como era a Itália e o mundo na época em que foram criados. Também fica muito claro ao assistir alguns desse filmes como eles foram importantes para definir o patamar do cinema de horror moderno pelo qual eu cresci fascinado.
O começo do horror italiano.
Após décadas de desinteresse por filmes de horror, em 1956 é lançado na Itália I Vampiri, considerado hoje a raiz do gênero que veio a ser o de maior sucesso em seu país nas duas subsequentes décadas: o giallo. Desde 1925 com Maciste all’inferno, de Guido Brignone, um filme de horror e fantasia ambientado no inferno e baseado na obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri, não havia sido produzido na Itália uma única obra cinematográfica do gênero de horror. Com I Vampiri, os diretores Riccardo Freda e Mario Bava retomam a temática de horror e fantasia e esboçam em seu filme o que viria a ser o novo cinema de horror italiano.
I Vampiri
Embora na ocasião de seu lançamento o filme não tenha obtido sucesso comercial nem aclame crítico, hoje é considerado por uma gama de críticos e admiradores do cinema como o precursor do terror moderno – anterior a filmes mais conhecidos, como Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, e A Noite Dos Mortos Vivos (1968), de George Romero.
O filme transporta para a época de sua realização a antiga história húngara da Condessa de Bathory, datada do século 17. Segundo a história, a condessa teria matado mais de 600 jovens mulheres de maneira brutal para usar seu sangue em rituais de preservação da juventude. Esse conto sobre a vaidade de um indivíduo capaz de cometer atos hediondos em prol de seus ideais hedonistas já havia sido retratado em outros filmes, mas pela primeira vez no cinema foi retirado de seu contexto do final da idade média e trazido para o mundo contemporâneo.
O teórico Andy Black sugere em seu ensaio Terror ancestral no mundo moderno que o filme de Freda e Bava “apresenta a noção de que mitos e rituais religiosos ancestrais ainda podem prevalecer e possuir influência numa sociedade contemporânea aparentemente agnóstica”.
Diversos filmes de vampiro (e outros que abordam mitos semelhantes), até mesmo filmes posteriores a I Vampiri, costumam condensar sua narrativa num espaço bem definido e resistente à cultura contemporânea, por exemplo um castelo medieval ou uma ilha mal-assombrada, mas o filme em questão extrapola esse limite ao apresentar personagens que circulam entre o cenário gótico (o castelo de Du Grand) e as ruas e instituições de uma Paris moderna. A ciência moderna também é um elemento chave no filme, onde a vampira protagonista, ao invés de beber o sangue das vítimas, se rejuvenesce através de procedimentos médicos de transfusão de sangue feitos num laboratório escondido em seu castelo.
O filme, ao unir tecnologia e vampirismo, ambientes góticos e modernos e ao usar os truques do cinema moderno para representar os efeitos mágicos do vampirismo, evidencia nas telas o sentimento de medo e insegurança presentes numa Itália que, após a Segunda Guerra, via escancarados os perigos e males que acompanham o desenvolvimento cientifico e tecnológico.
A Era de Ouro do cinema de horror italiano
Dando continuidade à estética proposta por Freda e Bava em I Vampiri, diversos títulos apareceram durante os dez anos seguintes, período que ficou conhecido como a Era de Ouro do horror italiano. Dessa produção, destacam-se dois filmes dos já citados autores: La maschera del demonio, de Bava e L’Orribile segreto del dottor Hichcock, de Freda.
O primeiro título, de 1960, baseado num conto de Nikolai Gogol, foi o ponto máximo da Era de Ouro, trazendo a Bava sucesso financeiro e reconhecimento internacional, e fomentando a produção de filmes do mesmo gênero na Itália ao longo da década de 60. Conta a história de uma bruxa queimada na fogueira, que volta anos após sua morte para se vingar dos descendentes de seus executores. Une uma fotografia muito sofisticada e poética, baseada no uso de luz e sombra dos filmes expressionistas da década de 20, a uma violência brutal, extrema e chocante, nunca antes vista nos filmes de horror, e muito mais intensa que a violência presente em outros ciclos de cinema de terror europeu, como o ciclo inglês da produtora Hammer. O filme é considerado a maior influência dos diretores inclusos no ciclo da Era de Ouro do cinema de horror italiano.
O filme de Freda, de 1962, é uma análise de um personagem isento da moral característica de seu contexto conservador e que deriva seu prazer da morte. A heroina é sua segunda esposa, que, assombrada pelo fantasma da primeira mulher assassinada pelo Dr. Hichcock, começa a desconfiar que está sendo envenenada por ele.
Esses dois trabalhos, ao lado de I Vampiri, são os grandes marcos dessa época do cinema de horror italiano.
O cinema giallo
Com I Vampiri, Mario Bava havia criado um estilo que se refletiu em toda a produção de terror da época. No entanto, anos depois, ele se afasta da proposta gótica e fantástica típica da Era de Ouro para criar uma nova estética que ficou conhecida como giallo – amarelo em italiano, em referência às cores das capas dos livros de suspense e assassinato que inspiraram tanto a temática quanto o visual dos filmes, feitos em cores usando uma palheta em tons pastéis como os da capa dos livros.
O filme que define essa nova proposta é La ragazza che sapeva troppo, de 1963. Ele mistura elementos da literatura de supense italiano e dos filmes de crime alemães com o esmero visual e a violência extrema e gráfica típica do cinema de Mario Bava. Apesar de ainda não ser em cores, como viriam a ser quase todos os filmes giallo, ele já apresenta em sua seqüência de abertura elementos fundamentais do gênero. A protagonista está num avião lendo um livro de suspense, indicando a forte influência que esse tipo de literatura tem nos enredos dos filmes, e apontando um tema recorrente do gênero: o avião – que representa a obsessão pela viagem e pelo turismo fomentada pelo, na época, recente crescimento das conexões aéreas entre os países da Europa; e que simboliza a popularização do cinema italiano de horror pelo mundo. Diversos filmes giallo começam ou terminam em aeroportos e muitos enredos apresentam personagens estrangeiros vivendo na Itália ou italianos vivendo em outros países da Europa. Outro elemento marcante nesse filme e presente no gênero é a moda e a costura típica da década de 60. Diversos filmes do gênero têm personagens envolvidos com o mundo da moda e os assassinos muitas vezes são caracterizados por seus trajes, quase sempre capas e luvas de couro preto, uma vestimenta que pode ser usada por qualquer personagem do filme, ocultando a identidade do assassino até que esta seja revelada. A figura do assassino de capa e luvas pretas tornou-se tão forte que criou um estereótipo difundido por todo o mundo e muito reverenciado na produção de filmes de horror americanos das décadas de 70 e 80.
Um ano depois, Bava dirige o filme que ficou conhecido como a obra prima do cinema giallo: Sei donne per l’assassino. O filme é ambientado no cenário da alta costura e apresenta um assassino que persegue jovens modelos. No final do filme descobrimos que o assassino é o gerente de uma grife pertencente a uma viuva, Isabella, a qual ele ajudou a matar o marido e herdar a grife. Descoberto por uma modelo, ele começa a ser chantageado por ela e a mata, mas a garota deixa um diário onde está relatado o crime. Perseguindo esse diário, ele mata uma série de modelos a fim de ocultar o assassinato do marido de Isabella.
Depois de atentar à questões da modernidade ao representar novas tecnologias e ciência tão misteriosas, perigosas e sedutoras quanto o mito dos vampiros em seu trabalho I Vampiri, Mario Bava se volta nesse filme, considerado por muitos seu melhor trabalho, a outras questões do mundo moderno: o assassino é motivado a matar por ambições econômicas e habita um ambiente onde mulheres são constantemente comparadas e confundidas com modelos inanimados de manequins e são valorizadas apenas como suporte para roupas caras. Isso é feito através de um trabalho de câmera que mostra pedaços de corpos que, à primeira vista, não conseguimos identificar se são das modelos ou dos manequins, e através de planos onde figuram atrizes tão imóveis que mais parecem objetos.
Dario Argento e o giallo na década de 70.
Seguindo a estrutura do gênero giallo e adicionando a ela elementos particulares, estréia em 1970 o diretor Dario Argento – o mais conhecido diretor italiano de terror. Seu filme de estréia, L’Uccello dalle piume di cristallo, apresenta elementos típicos do giallo: conta a história de um escritor americano que viaja à Itália para escrever seu novo romance (tema recorrente do estrangeiro que busca inspiração nas paisagens italianas). Um dia antes de voltar para a América, no caminho para sua casa, ele presencia uma tentativa de assassinato – uma linda mulher é esfaqueada por um assassino tipicamente caracterizado no estilo dos vilões de giallo numa galeria de arte. Tentando socorrer a vítima, o protagonista fica preso entre duas portas eletrônicas de vidro e não tem opção senão assistir à cena. Sendo uma testemunha importante para o caso, ele tem seu passaporte apreendido pelas autoridades romanas e não pode voltar para seu país de origem. Ao ver a incompetência da policia em solucionar o caso ele decide investigar o crime por conta própria e acaba se tornando alvo do assassino.
Em apoio à trama tradicional dos filmes giallo, Argento usa de uma linguagem caracterizada por movimentos elaborados de câmera e ângulos pouco convencionais. Visualmente, cada plano é uma surpresa. Também é notório o uso que Argento faz da trilha, muitas vezes dissonante das ações que tomam lugar na tela. A trilha escrita por Enio Morricone é pouco convencional e tem mais o papel de causar um impacto sensorial e criar um ambiente de estranheza do que de acompanhar diretamente as ações do filme.
Argento trabalha nesse filme uma forte noção de enclausuramento – como o próprio título, referente a um pássaro em extinção que é a principal atração de um zoológico, sugere. Logo no início temos o protagonista preso entre as portas de vidro, impotente por não poder ajudar a mulher em perigo. Temos também o mesmo personagem “enjaulado” em seu apartamento: americano que mora na Itália, vivendo com sua namorada isolado de todo contexto social, cultural e político do país em que vive, de maneira análoga ao pássaro cáucaso que não pode ser misturado com os outros (“ele nem ao menos suporta o cheiro dos outros pássaros”, como explica um funcionário do zoológico). O filme apresenta diversas imagens de enclausuramento (os pássaros empalhados e exibidos em caixas de vidro, os gatos enjaulados por um homem que pretende engorda-los para depois come-los, os animais presos no zoológico, o protagonista preso numa escultura de metal na cena final do filme) que sugerem idéias de impotência, isolamento e alienação. Devido a sua virtuosidade técnica e sua capacidade manipulativa, Argento é lembrado como o “Hitchcock Italiano”. Talvez um exagero dos italianos, mas o diretor certamente tem seus aspectos interessantes. Seu estilo envolvente e sua descrição estilizada da violência foram grande influência para muitos cineastas de horror que vieram depois dele. Traços do seu trabalho podem ser encontrados até hoje na produção cinematográfica de suspense e horror.
Se você cresceu vendo filmes onde um assassino de luvas pretas e máscara mata seqüencialmente várias mulheres bonitas (como Sexta-Feira 13, Halloween e os mais modernos Pânico, Lenda Urbana e Eu sei o que vocês fizeram no verão passado) ou é fã de séries de terror, você provavelmente vai se interessar por alguns filmes de terror desses diretores.
por Ricardo Miguel da Lima.